top of page

A música como linguagem de encontro, cuidado e emoção: a trajetória de Atlas Felipe no podcast Inclusive Luísa

  • há 3 dias
  • 7 min de leitura

No 4º episódio da 7ª temporada do podcast Inclusive Luísa: Reflexões Musicais, conhecemos a trajetória de Atlas Felipe, músico, flautista e educador musical de Belo Horizonte. Em uma conversa atravessada por memória, sensibilidade, deficiência visual, arte e pertencimento, Atlas compartilha com a gente como a música se tornou, ao longo de sua vida, uma linguagem de encontro consigo mesmo, com o outro e com o mundo.


Sua história começa a ser atravessada pela música ainda na infância, em um momento marcado por uma mudança profunda: a perda da visão por um erro médico aos 7 anos de idade. Foi nesse contexto que, aos dez anos, iniciou seus estudos no Instituto São Rafael, espaço historicamente importante na formação de pessoas cegas em Belo Horizonte e em Minas Gerais. Ali, Atlas teve seu primeiro contato com a flauta.


“O primeiro instrumento que realmente me encontrou foi a flauta.” (Atlas em entrevista para o Podcast Inclusive Luísa)


A frase dita durante o episódio carrega algo muito potente: a ideia de que os instrumentos também nos encontram. A música, em sua trajetória, não aparece apenas como escolha racional ou técnica, mas como encontro sensível. A flauta se transforma em linguagem, em extensão do seu corpo, em modo de organizar emoções, pensamentos e afetos. É isso que percebemos ao longo da entrevista, pois durante a conversa, Atlas demonstra uma relação profundamente afetiva com a música. Sua fala desloca a arte da lógica exclusivamente performática ou técnica e nos aproxima de uma compreensão mais humana da experiência musical.


“A música é o jeito que eu tenho de falar coisas que às vezes eu não consigo dizer de outro modo.” (Atlas em entrevista para o Podcast Inclusive Luísa)


Há algo profundamente bonito nessa compreensão da arte enquanto linguagem da sensibilidade. A música aparece como espaço de elaboração da experiência, de comunicação e de construção de presença.


Sua formação musical foi construída de maneira sólida e contínua. Passou pelo conservatório, cursou faculdade de música e ampliou seus conhecimentos em diferentes instrumentos ao longo da vida. Ainda assim, a flauta permanece como seu principal instrumento de expressão.

Ao ouvir Atlas falar sobre sua trajetória, percebemos que a música nunca esteve separada de sua experiência como pessoa cega. Pelo contrário: ela atravessa sua forma de perceber o mundo, construir relações e habitar os espaços.


Historicamente, pessoas com deficiência visual foram frequentemente associadas a narrativas restritivas que limitavam suas possibilidades de participação social, profissional e artística. Muitas vezes, a cegueira era compreendida apenas pela lógica da falta, ausência de visão, ausência de autonomia, ausência de possibilidades. Mas, a trajetória de Atlas rompe profundamente com esse olhar. Sua experiência nos ajuda a compreender aquilo que Carlos Skliar propõe ao refletir sobre diferença e alteridade quando discute educação e que nos ajuda a pensar no contexto social inclusivo. Para Skliar, a diferença não deve ser tratada como problema a ser corrigido, mas como experiência legítima da condição humana. O autor critica os discursos normativos que transformam sujeitos diferentes em corpos constantemente avaliados pela lógica da insuficiência. Atlas parece construir sua trajetória justamente recusando esse lugar de subvalorização.


“A gente cansa de ter que provar que sabe tocar.” (Atlas em entrevista para o Podcast Inclusive Luísa)


A fala aparece no episódio como denúncia, mas também como resistência. Ao longo de sua caminhada, Atlas enfrentou barreiras físicas, atitudinais e simbólicas. A falta de acessibilidade em espaços culturais, o descrédito direcionado a músicos cegos e a necessidade constante de reafirmar sua competência fazem parte de sua experiência profissional. Existe, ainda hoje, uma tendência social de associar deficiência visual à incapacidade técnica ou à dependência. No campo artístico, isso se manifesta quando músicos cegos precisam provar repetidamente sua qualidade profissional antes de serem reconhecidos legitimamente. Nesse sentido, a presença de Atlas nos palcos possui também uma dimensão importante pois, sua música afirma competência, profissionalismo e pertencimento. Ao longo da conversa, Atlas também fala sobre sua atuação como educador musical. Ensinar música, para ele, não é apenas transmitir técnica, mas construir relações.


“Dar aula é também aprender a escutar o outro.” (Atlas em entrevista para o Podcast Inclusive Luísa)


A frase evidencia uma dimensão profundamente ética da docência. A música aparece como espaço de troca, convivência e construção coletiva de saberes. Essa perspectiva dialoga intensamente com as reflexões de Anelice Ribetto sobre alteridade e diferença. Em suas discussões, Ribetto, que já foi entrevista desse podcast em temporadas anteriores, propõe pensarmos a educação como experiência de encontro com o outro, recusando práticas pedagógicas normalizadoras que tentam enquadrar sujeitos em padrões fixos de aprendizagem e existência.


No caso de Atlas, ensinar música significa construir espaços onde diferentes formas de percepção, escuta e sensibilidade possam existir legitimamente. Sua atuação docente também reafirma a música como ferramenta de autonomia e pertencimento. Quando músicos com deficiência ocupam o lugar de professores, artistas e formadores, rompem-se imaginários históricos que limitaram essas pessoas ao lugar exclusivo da dependência ou do cuidado passivo.


Atlas, assim como Jerônimo Rocha, segundo entrevistado dessa temporada, integra o grupo Forró Cabra Cega, banda que ocupa lugar importante na cena cultural de Belo Horizonte. Fazer parte do grupo representa muito mais do que participar de uma banda musical.


“No Cabra Cega, a gente faz música, mas também mostra que pessoas cegas podem ocupar qualquer palco.” (Atlas em entrevista para o Podcast Inclusive Luísa)


A frase revela a dimensão política da arte produzida pelo grupo. O Forró Cabra Cega constrói representatividade ao afirmar a presença de músicos cegos no cenário profissional da música popular brasileira.


Existe algo profundamente transformador quando pessoas com deficiência visual ocupam espaços historicamente negados a elas. Não se trata apenas de inclusão simbólica, mas da construção concreta de novas referências sociais sobre deficiência, arte e profissionalismo. Ao longo da entrevista, Atlas também compartilha experiências pessoais delicadas em que a música assumiu papel fundamental em sua permanência emocional, especialmente durante períodos de hospitalização.


“A música me ajudou a atravessar momentos muito difíceis.” (Atlas em entrevista para o Podcast Inclusive Luísa)


A fala vem marcada por uma enorme sensibilidade. Em diferentes momentos de sua vida, a música funcionou como apoio emocional, cuidado e possibilidade de permanência diante da dor. Essa compreensão dialoga com estudos brasileiros sobre música, deficiência visual e experiência sensível. A pesquisadora Daiana Pilar, professora do Instituto Benjamin Constant - RJ, discute como a educação musical para pessoas com deficiência visual ultrapassa o campo técnico e contribui para experiências de autonomia, elaboração emocional, pertencimento e construção subjetiva.


Ao refletir sobre música e cegueira, Daiana Pilar evidencia que a experiência sonora produz formas específicas de relação com o espaço, com os afetos e com o mundo. A escuta não aparece apenas como compensação sensorial, mas como experiência complexa de percepção e criação. Essa dimensão aparece intensamente na fala de Atlas.


“A música me organiza por dentro.” (Atlas em entrevista para o Podcast Inclusive Luísa)


A frase dita por Atlas sintetiza algo muito profundo sobre o papel da arte em sua trajetória. A música não aparece apenas como profissão ou entretenimento, mas como linguagem de elaboração da vida. Ao longo do episódio, ele reforça diversas vezes que não toca apenas para si mesmo.


“Eu quero tocar o outro. Quero emocionar.” (Atlas em entrevista para o Podcast Inclusive Luísa)


Há nessa fala uma compreensão muito bonita da arte enquanto encontro. A música, para Atlas, cumpre seu papel quando produz vínculo, quando atravessa alguém, quando cria experiência compartilhada. Essa perspectiva dialoga novamente com Skliar, especialmente quando o autor propõe pensarmos a alteridade como experiência ética do encontro com o outro. Para Skliar, a educação, a arte e a convivência só fazem sentido quando nos permitem afetar e sermos afetados pelas presenças que atravessam o mundo.


A música de Atlas parece nascer justamente desse desejo de produzir encontro. Ao refletirmos sobre deficiência visual e arte, também se torna importante questionar a centralidade histórica da visão em nossa sociedade. Vivemos em uma cultura profundamente organizada pelo olhar. Entretanto, experiências de pessoas cegas nos mostram que existem outras formas de perceber o espaço, os sons, os corpos e os afetos. A música ocupa, nesse contexto, um lugar profundamente sensorial. Por meio da escuta, Atlas constrói vínculos, organiza emoções e produz linguagem. Sua trajetória, bem como a de Jerônimo e dos demais componentes do grupo Forró Cabra Cega, nos lembra que a deficiência visual não significa ausência de percepção ou limitação da experiência estética. Pelo contrário: revela outras formas de construir sensibilidade e relação com o mundo.


Ao longo da conversa, Atlas também fala sobre sonhos e futuro. Curiosamente, afirma que seu principal sonho já foi realizado.


“Meu sonho era ser músico. E eu consegui.” (Atlas em entrevista para o Podcast Inclusive Luísa)


A frase é simples, mas profundamente potente. Em uma sociedade que frequentemente reduz pessoas com deficiência aos limites impostos pelo capacitismo, afirmar a realização de um sonho profissional possui enorme força política. Ainda assim, Atlas segue defendendo a ampliação de políticas públicas culturais, acessibilidade e reconhecimento profissional para artistas com deficiência.


“A gente não quer ser tratado como coitado. A gente quer ser reconhecido pelo nosso trabalho.” (Atlas em entrevista para o Podcast Inclusive Luísa)


Sua fala desloca completamente a lógica assistencialista que ainda atravessa muitos espaços culturais. Inclusão não é favor. Inclusão é direito, acesso e reconhecimento. A trajetória de Atlas Felipe nos ajuda a compreender que pessoas com deficiência visual não precisam apenas ser incluídas na arte. Elas já produzem arte, constroem cultura, ampliam sensibilidades e reinventam modos de existência. Nesse episódio do Inclusive Luísa, Atlas nos ajuda a perceber a música como linguagem de cuidado, emoção e encontro, como território legítimo de dignidade, expressão e humanidade. É disso que se trata a arte de Atlas, uma arte que nasce da escuta, da persistência e do desejo profundo de tocar o outro. E talvez seja justamente essa a maior potência da música, e da experiência que Atlas Felipe nos compartilha ao longo de sua trajetória: a capacidade de criar encontros, produzir afetos e construir vínculos invisíveis que atravessam os corpos, alcançam o outro e transformam, ainda que de maneira sutil, quem escuta.


Para assistir a esse episódio acesse: Podcast Inclusive Luísa

Beijos carinhosos,

Luísa Camargos

(Com apoio técnico de Danusa Tederiche)

 

Referências

RIBETTO, Anelice. Políticas, poéticas e práticas pedagógicas da diferença. Rio de Janeiro: Lamparina, 2011.

SILVA, Daiana Pilar Andrade de Freitas. Educação musical e deficiência visual: experiências sensíveis e processos de aprendizagem. Rio de Janeiro: Instituto Benjamin Constant, 2020.

SKLIAR, Carlos; RIBETTO, Anelice (org.). Diferença e alteridade na educação: conversas, problemas e perguntas. Rio de Janeiro: Wak Editora, 2015.

SKLIAR, Carlos. Experiências com a diferença. Rio de Janeiro: Wak Editora, 2014.

 

 
 

INCLUSIVE LUÍSA - Mobilização por uma sociedade all inclusive

 

Criado por AIC - Agência de Iniciativas Cidadãs

  • Preto Ícone Instagram
  • Ícone preto do Facebook
chancela AIC simplificada.png
bottom of page