top of page

Música, cegueira e escuta do mundo: Jerônimo Rocha e os caminhos da arte como existência

  • 23 de mai.
  • 6 min de leitura

No segundo episódio do podcast Inclusive Luísa: Reflexões Musicais, conhecemos a trajetória de Jerônimo Rocha, músico, artista e coordenador do grupo Forró Cabra Cega. Em uma conversa atravessada por afetos, cultura popular, deficiência, resistência e pertencimento, Jerônimo compartilha como a música se tornou muito mais do que profissão: tornou-se forma de existência, linguagem de luta e possibilidade concreta de ocupar o mundo.


Cego desde os 12 anos, Jerônimo construiu sua trajetória musical a partir da escuta, da experiência cotidiana e da persistência em continuar criando mesmo diante das inúmeras barreiras sociais, culturais e institucionais que atravessam a vida de artistas com deficiência no Brasil.


“A música foi tudo pra mim. Foi amizade, foi trabalho, foi viagem, foi sustento.” (Jerônimo em entrevista para o Podcast Inclusive Luísa)


A frase dita por Jerônimo durante o episódio sintetiza a profundidade da relação que estabelece com a arte. A música aparece não apenas como técnica ou carreira profissional, mas como território de pertencimento. Há algo muito potente nessa compreensão da arte enquanto experiência de vida, especialmente quando pensamos nas histórias de pessoas com deficiência, frequentemente reduzidas socialmente às narrativas da limitação ou da superação.


Ao narrar sua caminhada, Jerônimo desloca a deficiência do lugar da ausência para o campo da potência criativa. Sua trajetória nos lembra que pessoas cegas não vivem “apesar” da cegueira, mas constroem modos próprios de perceber, sentir e produzir mundo a partir de outras formas de relação com os espaços, os sons e os corpos.


Sua formação musical começou em 1984, no Instituto São Rafael, em Belo Horizonte, onde estudou trompete, canto coral, musicografia braille e canto lírico. Foram nove anos dedicados ao trompete, instrumento que estruturou sua compreensão musical. Mais tarde, ampliou seus conhecimentos de maneira autodidata, aprendendo saxofone, contrabaixo, bateria, violão e diversos outros instrumentos.


Ao ouvir Jerônimo falar sobre música, percebemos que sua relação com os sons ultrapassa o campo técnico. Existe uma dimensão profundamente sensível da escuta atravessando toda sua narrativa. A música aparece como experiência corporal, afetiva e coletiva.


Essa compreensão dialoga intensamente com o pensamento de Carlos Skliar quando o autor nos provoca a abandonar os discursos normalizadores sobre deficiência e diferença. Para Skliar, a sociedade construiu historicamente uma obsessão pela correção dos corpos considerados “incompletos”, transformando a diferença em problema a ser resolvido. Em oposição a isso, o autor propõe pensarmos a alteridade como experiência ética de encontro.

Jerônimo parece construir sua trajetória exatamente nesse movimento: não tentando apagar sua diferença para caber nos espaços, mas afirmando sua existência a partir dela.


“A maior dificuldade não é a deficiência. É a falta de reconhecimento.” (Jerônimo em entrevista para o Podcast Inclusive Luísa)


A fala aparece como uma denúncia direta ao capacitismo estrutural presente no campo

artístico e cultural. Ao longo da entrevista, Jerônimo relata como artistas com deficiência frequentemente são convidados a se apresentar gratuitamente ou apenas quando o tema dos eventos envolve inclusão. É como se a sociedade aceitasse a presença de artistas com deficiência apenas enquanto símbolos motivacionais ou exemplos de superação e, não como artistas legítimos, profissionais e produtores de cultura.


Esse olhar reduzido sobre a deficiência revela aquilo que Skliar chama de “pedagogia da normalidade”: uma lógica social que tenta enquadrar todos os corpos dentro de um padrão considerado ideal, tornando qualquer diferença um desvio a ser corrigido ou tolerado. Nesse contexto, a presença de Jerônimo nos palcos torna-se profundamente política. Sua trajetória rompe com o imaginário capacitista que historicamente afastou pessoas cegas dos espaços de protagonismo artístico. Mais do que ocupar esses lugares, Jerônimo reivindica reconhecimento profissional.


“A gente não quer favor. A gente quer oportunidade.” (Jerônimo em entrevista para o Podcast Inclusive Luísa)


A frase desloca completamente a lógica assistencialista que ainda atravessa muitas iniciativas voltadas às pessoas com deficiência. Inclusão não é caridade. Inclusão é direito, acesso e reconhecimento. Ao longo do episódio, Jerônimo também compartilha a experiência de coordenar o Forró Cabra Cega. Sua fala sobre a banda revela algo muito importante: a música como construção coletiva.


“Pra coordenar uma banda, você precisa conhecer os instrumentos, mas também conhecer as pessoas.” (Jerônimo em entrevista para o Podcast Inclusive Luísa)


Há algo profundamente bonito nessa afirmação porque ela desloca a música da ideia individualizante de talento e genialidade. A arte aparece como encontro humano, escuta e convivência. Essa perspectiva dialoga com as reflexões de Emmanuel Levinas sobre ética e alteridade. Para Levinas, o outro não deve ser reduzido às nossas categorias de compreensão. O encontro verdadeiro acontece quando reconhecemos a singularidade do outro sem tentar assimilá-lo completamente às nossas expectativas.


Jerônimo parece construir sua prática artística exatamente nessa direção: a música como experiência compartilhada, construída no encontro entre diferenças, tempos, escutas e sensibilidades. Ao falar do Forró Cabra Cega, Jerônimo também evidencia uma dimensão cultural importante da resistência. Em Belo Horizonte, o forró nem sempre ocupa espaços centrais na cena musical. Ainda assim, o grupo escolheu insistir no gênero musical nordestino como linguagem estética e política.


“A gente resolveu não se moldar ao lugar. A gente quis fazer o lugar ouvir o forró.” (Jerônimo em entrevista para o Podcast Inclusive Luísa)


A frase revela uma postura profundamente insurgente. Em vez de adaptar completamente sua arte às exigências do mercado cultural dominante, o grupo escolhe afirmar sua identidade musical, insistindo na circulação do forró em territórios onde esse gênero frequentemente é marginalizado.


Há nisso uma dimensão importante de afirmação cultural e pertencimento. O forró, assim como os corpos deficientes, muitas vezes ocupa lugares periféricos dentro das hierarquias sociais e culturais brasileiras. O Forró Cabra Cega produz resistência justamente ao insistir em existir nesses espaços. Ao longo da entrevista, Jerônimo também relembra momentos marcantes de reconhecimento artístico, como a participação no programa Raul Gil e as apresentações realizadas no Carnaforró.


“Aquele palco também era nosso.” (Jerônimo em entrevista para o Podcast Inclusive Luísa)


A força simbólica dessa frase é imensa. Historicamente, pessoas com deficiência foram afastadas dos espaços de visibilidade pública, dos grandes palcos e dos circuitos culturais legitimados socialmente. Estar nesses lugares significa disputar narrativas sobre quem pode produzir arte, ocupar a cena cultural e ser reconhecido socialmente. Essa disputa é também uma disputa sobre humanidade. Durante séculos, corpos deficientes foram vistos como incapazes, incompletos ou dependentes. A presença artística de Jerônimo rompe diretamente com essas imagens. Sua música afirma presença, autonomia, criação e potência.


Ao refletirmos sobre cegueira e arte, torna-se fundamental compreender que a experiência sensorial não se reduz à visão. A sociedade ocidental construiu historicamente uma centralidade do olhar como principal forma de conhecimento do mundo. Entretanto, experiências de pessoas cegas revelam outras formas de percepção, relação espacial, construção estética e produção sensível.


A escuta ocupa, na trajetória de Jerônimo, um lugar profundamente complexo. Não se trata apenas de ouvir sons, mas de perceber ritmos, atmosferas, presenças, relações e afetos. Essa reflexão dialoga com Maurice Merleau-Ponty, especialmente quando o autor compreende o corpo como experiência sensível de relação com o mundo. O corpo não é mero objeto biológico, mas lugar de percepção, linguagem e existência. A experiência corporal da cegueira, nesse sentido, não representa ausência de mundo, mas outras formas de construí-lo sensivelmente. Ao longo da conversa, Jerônimo também fala sobre a música como instrumento de conscientização social.


“A música é uma arma do bem.” (Jerônimo em entrevista para o Podcast Inclusive Luísa)


A expressão atravessa toda a entrevista e revela uma compreensão ética da arte. A música aparece como forma de luta, mas uma luta construída pelo afeto, pelo encontro e pela possibilidade de sensibilizar as pessoas. Não se trata de uma arte produzida para inspirar pena ou romantização. Trata-se de uma arte que reivindica dignidade, reconhecimento e presença. Ao final do episódio, Jerônimo fala sobre o desejo de abrir caminhos para outros músicos cegos.


“Quero que outros músicos cegos entendam que podem ir além.” (Jerônimo em entrevista para o Podcast Inclusive Luísa)


A frase carrega uma dimensão profundamente coletiva. Sua trajetória deixa de ser apenas individual e passa a produzir representatividade, pertencimento e possibilidade para outras pessoas. Essa dimensão da representatividade é fundamental quando pensamos diversidade e cultura. Ver pessoas com deficiência ocupando espaços de protagonismo artístico rompe silenciamentos históricos e amplia as formas possíveis de existir socialmente.

A trajetória de Jerônimo Rocha nos lembra que pessoas com deficiência não precisam apenas ser incluídas na cultura. Elas já produzem cultura, criam linguagens, ampliam sensibilidades e reinventam modos de existência. O que ainda falta, muitas vezes, é reconhecimento social, investimento e abertura real para que essas produções circulem com dignidade.

Nesse episódio do podcast Inclusive Luísa, foi possível perceber que a música aparece como caminho de pertencimento, resistência e humanidade e, que a arte de nosso entrevistado Jerônimo Rocha, nasce da insistência em existir plenamente. E, ao existir, ela também transforma. A si,e aos outros.


Para assistir a esse episódio acesse: Podcast Inclusive Luísa


Beijos carinhosos,

Luísa Camargos

(Com apoio técnico de Danusa Tederiche)

Referências

LEVINAS, Emmanuel. Ética e infinito. Lisboa: Edições 70, 1982.

MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da percepção. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

SKLIAR, Carlos. Pedagogia (improvável) da diferença: e se o outro não estivesse aí? Rio de Janeiro: DP&A, 2003.

SKLIAR, Carlos. A surdez: um olhar sobre as diferenças. Porto Alegre: Mediação, 1998.

SKLIAR, Carlos. Experiências com a diferença. Rio de Janeiro: Wak Editora, 2014.

 

 
 

INCLUSIVE LUÍSA - Mobilização por uma sociedade all inclusive

 

Criado por AIC - Agência de Iniciativas Cidadãs

  • Preto Ícone Instagram
  • Ícone preto do Facebook
chancela AIC simplificada.png
bottom of page