top of page

Música como sobrevivência, resistência e direito de existir: a trajetória de Odara no primeiro episódio do podcast Inclusive Luísa

  • 21 de mai.
  • 8 min de leitura

Atualizado: 27 de mai.

No primeiro episódio da nova temporada do podcast Inclusive Luísa: Reflexões Musicais, conhecemos a trajetória de Odara, artista de Belo Horizonte que transforma a música em ferramenta de sobrevivência, resistência e afirmação das vivências de pessoas com deficiência. Em uma conversa atravessada por afetos, denúncias, sonhos e experiências profundas, Odara compartilha como a música esteve presente em sua vida desde a infância, mesmo quando o mundo insistia em dizer que aquele não era um lugar possível para ele.


Mais do que contar uma trajetória artística, o episódio revela as barreiras que pessoas com deficiência ainda enfrentam para acessar os espaços da cultura, da criação e do reconhecimento profissional. Ao mesmo tempo, evidencia a potência da arte produzida por corpos historicamente invisibilizados e silenciados.


Odara constrói sua relação com a música a partir da necessidade de existir. Sua arte nasce da urgência de falar sobre experiências que raramente encontram espaço nas produções musicais tradicionais. Como ele afirma durante o episódio:


“Eu nunca ouvi músicas falando da vivência PCD de verdade. Então eu pensei: se não existe, eu vou fazer.” (Odara em entrevista para o Podcast Inclusive Luísa)


A frase sintetiza uma das questões centrais da conversa: a ausência de representatividade e de narrativas produzidas por pessoas com deficiência sobre si mesmas. Em um cenário cultural ainda profundamente capacitista, pessoas com deficiência quase sempre aparecem como personagens secundários, símbolos de superação ou objetos de inspiração para os outros. Raramente ocupam o lugar de artistas completos, criadores de linguagem e produtores de conhecimento.


É justamente dessa lacuna que nasce a produção musical de Odara.


Quando a música continua gritando dentro da gente


Desde criança, Odara sonhava em ser músico. Mas, ao longo da vida, esse desejo foi constantemente desacreditado. A deficiência, sobretudo quando não é imediatamente visível, faz com que muitas pessoas tenham suas necessidades invalidadas ou ignoradas. Em outros momentos, quando a deficiência é reconhecida, ela vem acompanhada da ideia da incapacidade.


Durante o episódio, Odara relembra como, por muito tempo, precisou abandonar sonhos para tentar caber em expectativas sociais limitadas. Ainda assim, a música nunca desapareceu completamente.


“A música sempre gritou dentro de mim. Mesmo quando eu tentava deixar isso de lado, ela continuava ali.” (Odara em entrevista para o Podcast Inclusive Luísa)


Essa relação intensa com os sons acompanha Odara desde cedo. Sua sensibilidade auditiva, frequentemente percebida socialmente como um problema ou excesso, transforma-se em potência criativa. Sons cotidianos, detalhes quase imperceptíveis para outras pessoas e ritmos presentes na cidade se tornam matéria-prima para composições, melodias e experimentações.


Há algo profundamente simbólico nisso: aquilo que muitas vezes é visto como obstáculo pela sociedade aparece, na experiência artística de Odara, como força inventiva.


A reflexão proposta por Odara dialoga com o pensamento de Jorge Larrosa quando o autor afirma que “a experiência é o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca” (Larrosa, 2002). A música, nesse contexto, não aparece apenas como técnica ou entretenimento, mas como experiência que atravessa o corpo, reorganiza sentidos e produz existência. Em Odara, a criação artística emerge justamente daquilo que o toca profundamente: a exclusão, a sensibilidade, os silenciamentos e também os desejos de presença e pertencimento.


Criar mesmo sem recursos


Ao longo da conversa, Odara também fala sobre as dificuldades concretas para produzir sua música. Embora tenha realizado um curso básico de produção musical, ela não possui acesso aos equipamentos normalmente considerados essenciais para quem trabalha profissionalmente com música.


Sem computador, sem softwares pagos e sem estrutura técnica adequada, Odara produz suas músicas utilizando apenas o celular e aplicativos gratuitos. É no improviso e na insistência que sua arte vai sendo construída.


“Faço beat no celular, escrevo no celular, gravo como dá. Vou aprendendo sozinho.” (Odara em entrevista para o Podcast Inclusive Luísa)


A fala revela uma dimensão importante da exclusão cultural vivida por muitos artistas com deficiência: a precarização do acesso aos meios de criação. Falar sobre inclusão cultural não significa apenas garantir presença em eventos ou espaços de circulação artística. Significa também garantir condições materiais para que artistas possam criar, produzir, estudar e desenvolver seus trabalhos com dignidade.


Essa discussão encontra eco nos estudos de Michel de Certeau (1994), especialmente quando o autor discute as “artes de fazer” construídas pelos sujeitos em contextos de desigualdade. Mesmo diante da ausência de recursos e oportunidades, pessoas criam táticas cotidianas de reinvenção e sobrevivência. A produção musical de Odara nasce justamente dessas táticas: criar com o que se tem, ocupar brechas, reinventar ferramentas e produzir arte apesar das ausências.


Ainda assim, mesmo diante dessas barreiras, Odara já participou de eventos, apresentações e atividades culturais importantes na cidade. Sua presença artística insiste em existir, mesmo quando faltam recursos básicos.


O peso das barreiras invisíveis


Um dos momentos mais marcantes do episódio acontece quando Odara fala sobre as barreiras atitudinais e comunicacionais que enfrenta constantemente. Muitas vezes, ao solicitar adaptações simples (como comunicação acessível, possibilidade de autorregulação, diminuição de ruídos ou respeito aos seus limites sensoriais) as oportunidades desaparecem.

É como se o mercado cultural estivesse disposto a aceitar a presença de pessoas com deficiência apenas enquanto elas não alteram nenhuma estrutura.


“Quando eu peço acessibilidade, as pessoas somem.” (Odara em entrevista para o Podcast Inclusive Luísa)


A frase é dura, mas traduz uma realidade vivida por muitas pessoas com deficiência em diferentes espaços sociais. Ainda existe uma compreensão muito limitada sobre acessibilidade, frequentemente reduzida apenas à dimensão arquitetônica. Pouco se fala sobre acessibilidade comunicacional, sensorial, tecnológica e relacional.


No caso de artistas neurodivergentes ou pessoas com deficiências não visíveis, essa realidade se torna ainda mais complexa. A necessidade de suporte costuma ser questionada, relativizada ou desacreditada. Como consequência, muitas pessoas acabam sendo excluídas de oportunidades culturais, profissionais e afetivas.


O episódio evidencia que inclusão não pode ser tratada como favor, gentileza ou exceção. Acessibilidade é direito.


Essa reflexão se aproxima das discussões de Mantoan (2003), ao afirmar que inclusão não significa adaptar pessoas a sistemas excludentes, mas transformar os próprios sistemas para que a diversidade humana possa existir plenamente. Nesse sentido, a luta por acessibilidade é também uma luta política por reconhecimento e participação social.


Rap como ferramenta de letramento e resistência PCD


A escolha do rap como linguagem artística não é casual. Historicamente, o rap surge como expressão de denúncia, resistência e afirmação de sujeitos marginalizados. Em sua trajetória, Odara encontra nesse gênero musical um espaço possível para transformar dor em discurso e experiência em mobilização.


Suas letras falam sobre capacitismo, exclusão, invisibilidade, sofrimento psíquico, pertencimento e humanidade. Mas também falam sobre força coletiva, afeto e possibilidade de transformação.


Mais do que produzir músicas, Odara busca promover letramento sobre deficiência.


“Minha música é para fortalecer pessoas PCD e também para fazer pessoas sem deficiência repensarem seus olhares.” (Odara em entrevista para o Podcast Inclusive Luísa)


Essa dimensão pedagógica atravessa toda sua produção artística. A música aparece como linguagem capaz de sensibilizar, provocar reflexão e construir outras formas de enxergar a deficiência.


Ao afirmar que deficiência não é defeito, mas diversidade humana, a artista desloca o olhar social que historicamente associa corpos deficientes à falta, à tragédia ou à insuficiência.


A perspectiva apresentada por Odara dialoga diretamente com os Estudos da Deficiência e com autoras como Débora Diniz (2007), que compreendem a deficiência não como tragédia individual, mas como experiência produzida socialmente pelas barreiras e desigualdades presentes na sociedade. Assim, o problema não está no corpo da pessoa com deficiência, mas nas estruturas que impedem sua participação plena.


As Paradas do Orgulho PCD e a experiência do pertencimento


Em meio a tantos relatos de exclusão, o episódio também apresenta experiências potentes de acolhimento e fortalecimento coletivo. Odara fala com emoção sobre sua participação nas Paradas do Orgulho PCD de Belo Horizonte, espaços onde já se apresentou em todas as edições realizadas até agora.


Para ela, esses momentos representam muito mais do que apresentações musicais.


“Ali eu sinto que minha música faz sentido.” (Odara em entrevista para o Podcast Inclusive Luísa)


As Paradas do Orgulho PCD têm se consolidado como importantes espaços políticos, culturais e afetivos de afirmação da identidade das pessoas com deficiência. Nesses encontros, artistas como Odara encontram escuta, reconhecimento e pertencimento, experiências frequentemente negadas em outros contextos sociais.


Ver outras pessoas com deficiência se identificando com suas letras fortalece sua caminhada artística e reafirma o sentido coletivo de sua produção.


Essa dimensão coletiva pode ser pensada a partir de Paulo Freire (1996), quando o educador afirma que ninguém se fortalece sozinho e que a transformação social acontece na relação com o outro, no diálogo e na construção compartilhada de sentidos. A arte, nesse contexto, torna-se prática de encontro, consciência e emancipação.


Música como direito à humanidade


Ao longo do episódio, uma ideia retorna diversas vezes: pessoas com deficiência precisam ser reconhecidas como humanas em sua totalidade. Pode parecer algo óbvio, mas a história das pessoas com deficiência é marcada justamente pela negação de humanidade, autonomia e capacidade de decisão.


Nesse contexto, a música de Odara se torna um grito por existência. Sua arte reivindica espaço, dignidade e escuta. Não pede permissão para existir. Não busca pena ou romantização. Busca reconhecimento.


“A gente existe. A gente sente. A gente cria.” (Odara em entrevista para o Podcast Inclusive Luísa)


A potência dessa afirmação está justamente em sua simplicidade. Em uma sociedade ainda atravessada por lógicas capacitistas, afirmar a humanidade das pessoas com deficiência continua sendo um ato político.


Ao transformar dor em criação, Odara também produz memória, linguagem e presença. Sua trajetória nos lembra que cultura e acessibilidade não podem ser pensadas separadamente. O direito à arte é também direito à cidadania, à participação social e à construção de narrativas próprias.


Sonhos, futuro e permanência


Odara sonha em lançar suas músicas em plataformas de streaming, acessar estúdios profissionais e produzir suas composições com melhores condições técnicas. Sonha também em ocupar espaços culturais onde suas necessidades de acessibilidade sejam respeitadas sem questionamentos.


Mas seus sonhos não são apenas individuais. Ao longo da conversa, ele reforça a importância da coletividade entre artistas com deficiência e da construção de redes de fortalecimento mútuo.


“Juntos a gente é ainda mais potente.” (Odara em entrevista para o Podcast Inclusive Luísa)


Essa perspectiva coletiva aparece como caminho fundamental para enfrentar o isolamento, a invisibilidade e a falta de oportunidades ainda presentes no cenário cultural brasileiro.


Odara também ressalta a importância de políticas públicas voltadas à inclusão cultural, formação artística, acessibilidade e incentivo à produção de artistas com deficiência. Afinal, talento sem acesso continua sendo exclusão.



O direito de ocupar a cultura


A trajetória de Odara nos lembra que pessoas com deficiência não precisam apenas ser incluídas na cultura: elas já produzem cultura, criam linguagem, transformam estéticas e ampliam os modos de existir no mundo.


O que falta, muitas vezes, é reconhecimento, investimento e abertura real para que essas produções circulem com dignidade.


No primeiro episódio do Inclusive Luísa: Reflexões Musicais, a música aparece como ferramenta de sobrevivência, mas também como possibilidade de futuro. Um futuro em que artistas com deficiência não sejam vistos como exceção, cota simbólica ou inspiração, mas como parte essencial da cena cultural.


A arte de Odara nasce da insistência em existir. E, ao existir, ela também transforma.

Porque sua música não fala apenas sobre deficiência. Ela fala sobre humanidade, presença e direito à vida em sua plenitude.


Para assistir a esse episódio acesse: Podcast Inclusive Luísa


Beijos carinhosos,

Luísa Camargos

(Com apoio técnico de Danusa Tederiche)


Referências

CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano: artes de fazer. Petrópolis: Vozes, 1994.

DINIZ, Débora. O que é deficiência. São Paulo: Brasiliense, 2007.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

LARROSA, Jorge. Notas sobre a experiência e o saber da experiência. Revista Brasileira de Educação, Rio de Janeiro, n. 19, p. 20-28, jan./abr. 2002.

MANTOAN, Maria Teresa Eglér. Inclusão escolar: o que é? por quê? como fazer? São Paulo: Moderna, 2003.

 
 

INCLUSIVE LUÍSA - Mobilização por uma sociedade all inclusive

 

Criado por AIC - Agência de Iniciativas Cidadãs

  • Preto Ícone Instagram
  • Ícone preto do Facebook
chancela AIC simplificada.png
bottom of page